Pela primeira vez em 31 edições da Hospitalar, pauta foi tema dentro do maior evento de saúde das Américas
SÃO PAULO (SP)
MAIO DE 2026

Inteligência artificial, equipamentos de última geração, robôs cirúrgicos e tecnologias capazes de revolucionar o atendimento hospitalar dominaram os corredores da Hospitalar 2026, realizada na Expo São Paulo. Em meio às inovações apresentadas durante o evento, uma participação inédita chamou atenção: pela primeira vez em 31 edições da feira, povos indígenas tiveram espaço para compartilhar seus saberes ancestrais dentro do maior encontro de saúde do continente, e a ANBIOTEC Brasil foi a responsável por abrir essa porta.

Ainda no segundo dia de evento, ocupando um dos quatro palcos da Hospitalar, a Arena de Conteúdo ANBIOTEC reuniu convidados especiais ao longo de 5 horas de debates, aprendizados e reflexões sobre os caminhos que conectam a biotecnologia à ancestralidade e às tecnologias desenvolvidas por Associadas e parceiros da rede. A programação foi conduzida pelo Mestre de Cerimônias, jornalista e especialista em comunicação e Imagem, Benedito Procópio.

O evento foi estruturado em três painéis temáticos, além de participações especiais. O primeiro painel, “Saberes que Sustentam a Vida”, foi moderado pela própria Presidente-Executiva da ANBIOTEC Brasil, Vanessa Silva da Silva, e contou com a participação de Lourenço Krikati, liderança indígena do povo Krikati e Presidente do Projeto Hämy, iniciativa que leva atendimento oncológico a comunidades indígenas, e de Marcelo Pataxó, Embaixador dos Povos Indígenas da ANBIOTEC Brasil.
O painel contou ainda com participação em vídeo de Mônica Bento de Almeida Guajajara, assistente social em saúde indígena da AgSUS, com atuação dedicada ao fortalecimento do cuidado e da atenção integral às populações indígenas.

O segundo painel, “Inovação em Saúde: do Laboratório ao Território”, foi moderado por Márcio Henrique Lacerda, Diretor de Assuntos Regulatórios da ANBIOTEC Brasil, doutor em Bioquímica e Imunologia.
Participaram Silvio Arndt, farmacêutico-bioquímico com mais de três décadas no setor de diagnóstico laboratorial e ex-Presidente da ANBIOTEC Brasil; Thays Rocha de Carvalho, Assessora da Quinta Diretoria da ANVISA; e Cláudio Brandão, Diretor Executivo da Emerging Biopharmaceutical Manufacturers Network.

O debate abordou os desafios regulatórios, logísticos e tecnológicos para transformar conhecimento científico em soluções acessíveis e seguras para a população.

O terceiro painel, “Levando Saúde aos Territórios — Projeto Hämy: uma iniciativa de sucesso”, foi moderado pelo Dr. Carlos Ballarati, médico patologista clínico, doutor em Patologia pela USP e Conselheiro da ANBIOTEC Brasil. Participaram o Dr. Jorge Soares Lyra, cirurgião oncológico com formação pelo INCA e membro do Conselho de Administração do INCOH, e o Dr. Gumercindo Filho, médico cirurgião oncológico e Diretor de Inovação e Pesquisa do INCOH. A conversa trouxe experiências concretas de ampliação do acesso à saúde nos territórios indígenas, integrando mobilidade, tecnologia e cuidado oncológico.

Marcelo Pataxó: a inteligência ancestral na era da IA
Representando os povos indígenas da Bahia, Marcelo Pataxó participou da programação a convite da ANBIOTEC Brasil e protagonizou um dos momentos mais marcantes do evento. Para ele, a presença indígena na Hospitalar representa um marco histórico. “É um marco quando se trata da oportunidade dos povos originários trazerem sua voz para tantas pessoas que, muitas vezes, ainda têm um preconceito estrutural e não entendem que as vozes da natureza também podem se integrar à tecnologia ocidental”, afirmou.
Enquanto a feira discutia os avanços da inteligência artificial na medicina, Marcelo destacou que os povos originários também carregam sua própria “IA”. “A gente brincou aqui na feira que todos falam sobre inteligência artificial. Nós também trazemos a nossa IA, mas a nossa IA é a inteligência ancestral”, disse. O objetivo, segundo ele, não é criar divisões entre os conhecimentos tradicionais e a ciência moderna, mas promover integração. “Nós não estamos aqui para dividir, estamos aqui para somar e levar esse conhecimento tecnológico para dentro dos territórios, mas de maneira respeitosa”, explicou.
Durante a programação, os indígenas apresentaram conhecimentos medicinais ancestrais utilizados há séculos pelos pajés e xamãs das comunidades, incluindo ervas medicinais, garrafadas, rapés e pomadas naturais produzidas a partir de elementos da floresta. Marcelo também destacou os desafios para que a tecnologia chegue às aldeias de forma eficiente e respeitosa, citando o difícil acesso aos territórios e a falta de participação indígena no desenvolvimento das soluções.
“Às vezes, a tecnologia é construída pelo branco sem o envolvimento indígena. Então, nós não conseguimos entender como aquilo pode funcionar dentro do território”, afirmou. Como exemplo de integração bem-sucedida, ele citou o projeto Raman, desenvolvido em parceria entre indígenas, técnicos de saúde e médicos.
A programação contou ainda com a apresentação especial de Helena Ruette e Renato da Glória sobre o projeto arquitetônico da Ilha ANBIOTEC Brasil e o momento simbólico de doação dos bambus do estande à Aldeia Guarani Guyra Pepó reforçando que os compromissos da ANBIOTEC Brasil com os territórios e com a sustentabilidade vão muito além das palavras.

Ao encerrar sua participação, Marcelo resumiu o significado histórico do momento com uma reflexão sobre o encontro de saberes: “Depois de 31 anos, a Hospitalar descobriu os povos originários. Foi um encontro de saberes. Nós somos seres, e seres têm saberes. Se esses saberes se encontram, podemos construir soluções mais eficazes não só para os nossos territórios, mas para todo o planeta.”


